A Paternidade e o PIM

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A presença do pai na vida do ser humano é importante em qualquer período da vida. A percepção desta presença interfere no desenvolvimento psíquico do bebê, desde a vida intrauterina, além de se constituir amparo significativo para a mãe em termos de afeto, confiança e segurança.

Ao longo dos últimos anos, com os avanços da Neurociência e dos recursos tecnológicos, as comprovações dos efeitos que o amor, o cuidado e a proteção provocam no psiquismo do ser humano passaram a ser devidamente comprovados  do ponto de vista científico, através de forma visual, concreta. Hoje, o efeito das emoções vivenciadas são localizáveis no cérebro. Por esta razão, já não mais se pode ignorar ou minimizar a importância de impactos positivos ou negativos sobre a estrutura física e emocional do indivíduo. Do mesmo modo, em relação à importância do estímulo adequado, em tempo hábil, sobre o desenvolvimento integral da criança.

Assim, quando um filho está para nascer, a mobilização psicoemocional não é apenas da mãe, cujas transformações físicas são visíveis, ratificando seu estado. O pai também vivencia mudanças importantes, mesmo que até não as reconheça. Estas se dão principalmente no sentido emocional. As expectativas sociais que estão colocadas sobre o seu papel dentro da família e na própria sociedade nem sempre encontram correspondência  junto aos planos pessoais. Será pai, e aí? O que se faz?  Como se faz? Um homem(que é filho) torna-se pai. Eis um evento que muda totalmente a vida do ser humano. Uma das referências que pode ter sobre  paternidade é seu próprio pai. Se esta relação é, ou foi boa, a perspectiva é mais positiva. Se foi frustrante, triste ou difícil, o panorama pode não ser tão positivo. Neste tempo de espera, são comuns expectativas, dúvidas, preocupações, medos e inseguranças. A quem deve recorrer? Quem o escutará? Estará preparado?

Necessariamente, um pai não se institui com o nascimento de um filho. Do mesmo modo,  um filho não passa a existir na vida de um casal apenas a partir da fecundação, ou de sua gestação e parto. Há um lugar outro, simbólico, de existência anterior, onde o desejo de paternidade acontece para instaurar um lugar para o filho. Imaginar, igualmente faz bem, prepara, constrói.

Neste sentido, o relacionamento parental passa a ser mais exigido quanto aos ajustes que precisam acontecer a partir da chegada do bebê. São mobilizações que vão desde o provimento de um espaço físico, à alimentação, atenção e cuidados que o novo membro da família necessita para ser bem acolhido e integrado, afetiva e socialmente. Há que acontecer, por vezes, a reconstrução desta relação, uma vez que a rotina se altera de modo significativo quando chega o novo participante. É preciso  preservar o que está bem. É importante modificar o que está mal. O diálogo, pautado na empatia e no respeito mútuos é o caminho mais eficaz para um bom resultado.

Nos nove meses de espera do filho, a participação do pai deve ser incluída, seja através do carinho dado à mãe, que transmite quimicamente ao feto  sensações de conforto e prazer, já nos primeiros meses de vida intrauterina; seja através da voz, expressada amorosamente junto ao ventre materno. Esta voz pode ser a do pai, ou daquele que este lugar ocupa. É uma comunicação diferenciada, que tem como base o afeto e o carinho manifestados a partir de atitudes de acolhida, que muito contribuem para o bem estar de todos, além de preparar o ambiente para a chegada do novo membro na família. Todas estas vivências habilitam para uma recepção afetivamente adequada, favorável, de modo que a alegria esteja presente, mais que outros sentimentos.

Mas, para que tal aconteça, a mãe precisa ceder espaço ao pai. Esta é uma atitude não apenas necessária para a estruturação da família, mas constitui sólido alicerce para o psiquismo saudável da criança. Os laços de afeto, respeito e confiança entre pai e mãe, além da convivência  equilíbrada e postura coerente na convivência  do dia a dia, representam a possibilidade real de um ambiente favorável, facilitador do desenvolvimento  dos filhos.

Neste contexto, uma questão que deve ser colocada em pauta é o quanto a cultura social vigente reconhece e valoriza e ou favorece a presença do pai na vida cotidiana do filho, no seu desenvolvimento como ser humano.

O sentido de paternidade aqui pode ser tomado como presença que não apenas existe para compor uma família, mas que aí se coloca para estar inteiro. É de um “ser pai” que é parte única de uma relação. Alguém que participa de cada momento, com sua falta de jeito, suas inseguranças, temores e incertezas, mas sobretudo, com seu amor. Alguém que está  se “inaugurando” como pai de um novo ser; que pode trocar fraldas, dar banho e apoiar a mãe na hora da mamada, enfim. Colocar-se junto, apoiar e aprender é uma ótima chance de se apreender como homem – ser humano,  que está colocando no mundo mais um ser; de conhecer- conhecendo-se para educar, proteger e cuidar.

E este mesmo pai que  cuida e protege, precisa também se proteger e se cuidar. Afinal, está assumindo novos compromissos na vida. Sua saúde é a saúde de todos os seus.

Além disso, uma relação saudável entre pai e mãe, que mantém equilíbrio e  coerência na   convivência familiar diária, já está contribuindo significativamente para o desenvolvimento de seus filhos; para que seus filhos se integrem socialmente, de modo mais positivo, responsável e produtivo.

E, para corroborar positivamente na efetivação de vivências familiares saudáveis, coloca-se o Primeira Infância Melhor, PIM e toda a sua singular estratégia de relação com as famílias. A intersubjetividade aí estabelecida, considerando o modo de relação visitador- família/criança,  constitui a base  de ganhos que transcendem o que pode ser observado ou medido. E não são apenas ganhos de mães, pais ou cuidadores e seus filhos, mas  do sujeito que ali se presentifica, com sua história e vivências, para caminhar  ao lado, olhando, escutando, valorizando e acompanhando cada uma dessas famílias. Afetividade, respeito, apoio, e confiança  são elementos fundamentais  que se constroem no dia a dia desta relação. Eis uma ação simples, mas potente em termos da promoção de viabilidades – muito do que o ser  humano necessita para crescer e se desenvolver.

“Ser pai é uma experiência linda e transformadora. Mas é também um ato político. A sociedade precisa de pais. Não pais que estejam dispostos a ajudar as mães a cuidar dos filhos e filhas. Mas pais que ajudem a mostrar que o cuidado das crianças é tarefa compartilhada.”

                                                  Pedro Vieira Abramovay é formado em direito pela USP,  mestre em Direito Constitucional pela UnB, foi Secretário Nacional de Justiça e é atualmente Diretor para a América Latina e Caribe da Open Society Foundations.

Por Lacy Pires


 

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