Visitação Domiciliar

Visitação Domiciliar

Uma estratégia de intervenção

A visita domiciliar é uma metodologia de trabalho de caráter educacional, assistencial e exploratório, realizada por profissionais que vão ao domicílio do paciente, usuário ou beneficiário de um serviço (Teixeira, 2009). Representa uma estratégia de aproximação dos serviços com as realidades atendidas que favorece um reconhecimento mais preciso das características, potencialidades e necessidades de cada contexto, resultando em propostas de intervenção singulares, pertinentes a cada realidade.

Na medida em incorporou conceitos de cuidado mais abrangentes – respondendo à perspectiva de atenção integral – a visita domiciliar ampliou suas finalidades e elementos estruturais, abrindo espaço para o exercício da multidisciplinaridade e da intersetorialidade.

De acordo com pesquisas disponíveis, melhores resultados são alcançados quando os programas são baseados em teorias de desenvolvimento e mudança de comportamento, são dirigidos a fatores de risco empíricos, contratam equipes altamente qualificadas e seguem um currículo amplo, estruturado e que incorporam aspectos das famílias. A intensidade das visitas, a manutenção dos visitadores por pelo menos dois anos nos programas, a articulação com as Redes de Serviços e a atenção paralela das famílias em centros de apoio – como Unidades de Saúde ou Centros de Referência da Assistência Social – promovem efeitos duradouros, mesmo após o término da intervenção.

Por que a visita domiciliar semanal é importante para o PIM

O Primeira Infância Melhor utiliza a estratégia da visita domiciliar porque credita ao potencial humano das famílias a capacidade para empreender e se desenvolver a partir da relação com o outro. Para esta proposta de intervenção, as famílias são convidadas a participar do PIM e ingressam por desejo próprio. O Visitador deve também revelar sua intenção, o significado de sua presença – investigando as distintas expectativas e motivações com relação à sua proposta de trabalho.

Ele possui disponibilidade para escutar aquilo que atravessa as dinâmicas familiares, ou seja, suas crenças, valores e hábitos e esta postura se fortalece a cada encontro, na medida em que a família elabora suas aprendizagens e apresenta novas interpretações de sua própria realidade e da realidade de suas crianças. Respeito mútuo e acolhida são elementos deste encontro, onde o valor à singularidade de cada um, de cada espaço e lugar, é considerado para a obtenção dos resultados pretendidos.

Evidente que esta perspectiva de atuação exige do Visitador muito mais do que um olhar comprometido sobre os contextos familiares, mas é nesta primeira condição que está forjada a motivação da família em participar das atividades propostas, na medida em que ela se reconhece na fala do visitador que fala com ela e aposta na sua capacidade criativa.

Trabalhar semanalmente com as famílias em suas residências, abre espaço para novos movimentos na dinâmica dessa convivência, sensibilizando e mobilizando em relação ao modo como cada membro se coloca em relação à criança. A visita domiciliar, prevê a valorização da família, do domicílio e da comunidade enquanto espaços privilegiados para promoção da saúde e do bem-estar. Mais autonomia, maior consciência e, sobretudo, maior autoestima e autovalor, são conquistas importantes, principalmente ao se considerar as condições de vulnerabilidade e risco social deste público-alvo.

A finalidade não é ensinar as famílias a cuidarem de suas crianças, e, sim orientá-las em relação à estimulação e necessidades específicas/singulares de acordo com a faixa etária em questão, no sentido de privilegiar famílias do público prioritário, como um apoio a mais, entre tantos outros serviços e olhares que são oportunizados.

A visita domiciliar pode oferecer o auxílio necessário para fortalecer um ambiente de afeto e segurança, onde as crianças encontrem oportunidades e apoio para crescer e se desenvolver de forma saudável, ou seja, com habilidades para aprendizagem e regulação das emoções, autonomia e cooperação no social. Portanto, a periodicidade semanal das visitas é uma estratégia eficaz para o acompanhamento das demandas familiares no cuidado aos seus filhos. Os encaminhamentos, quando necessários, são atendidos em breve espaço de tempo, minimizando as vulnerabilidades e riscos.

ZERCHER E SPIKER (2010) revelam que esta modalidade de atendimento permite promover mudanças nos conhecimentos, crenças e práticas das famílias com relação as suas crianças. Mudanças que reverberam nas condições de saúde, na aprendizagem e no desenvolvimento das crianças – contribuindo especialmente com a qualidade da interação entre pais e filhos.

O profissional que atua na visitação domiciliar não deve apenas instrumentalizar as famílias, mas, especialmente, representar o estímulo que permite aos pais e cuidadores ressignificarem suas concepções e práticas, a partir de seus próprios recursos, se descobrindo ou se fortalecendo como elementos fundamentais na estruturação do desenvolvimento de suas crianças e de seu cotidiano enquanto família. Além disso, deve também acompanhar o desenvolvimento dos ganhos familiares e infantis, representando uma figura de segurança e apoio nos momentos de dificuldades ou progressos.

Seu trabalho consiste em um constante revelar de possibilidades, através de uma relação dialógica que permite às famílias reconhecerem seu protagonismo diante da vida. Evidente que a construção de um trabalho com estas características requer investimentos contínuos na formação e supervisão dos Visitadores.
O caráter intersetorial do grupo gestor do PIM favorece o monitoramento e a aproximação dos serviços as necessidades de cada contexto familiar, resultando em propostas de intervenção singulares, pertinentes a cada realidade.

Os ganhos auferidos deste contato, jamais se perdem e dizem respeito à qualidade de vida, mais que a valores quantificáveis. Duram uma vida inteira e esta é a aposta maior do PIM.
As famílias beneficiárias pelo Bolsa Família que serão atendidas pelo PIM/Criança Feliz, na prática, além do recebimento de transferência renda, receberão o atendimento domiciliar, com a proposta de fortalecimento das experiências onde a família perceba seu potencial criador e os recursos que dispõem para se apropriar das questões relativas ao cuidado e educação de suas crianças.

O Visitador e sua Relação com a Família

O Visitador é o responsável direto por apoiar as famílias para o fortalecimento de suas competências em cuidar e educar suas crianças. Seu trabalho consiste em realizar as visitas de acordo com a metodologia definida pelo programa, com o suporte de uma equipe de apoio. Em sua rotina de trabalho, deve buscar construir uma relação dialógica com as famílias, reconhecer o que emerge de seu cotidiano, se posicionar como um facilitador na construção de conhecimentos e motivar para que as famílias sejam protagonistas de seu próprio desenvolvimento. O ponto inicial precisa ser o reconhecimento de que cada família representa um universo de significados e que a compreensão de seu contexto depende de uma escuta qualificada daquilo que atravessa as dinâmicas familiares, ou seja, suas crenças, valores e hábitos.

Nesse processo de escuta, o visitador deve também revelar o objetivo de sua presença – investigando as distintas expectativas e motivações com relação à sua proposta de trabalho. Esta postura se fortalece a cada encontro, na medida em que a família elabora suas aprendizagens e apresenta novas interpretações de sua própria realidade.

A construção de um trabalho com estas características requer investimentos contínuos na formação e supervisão dos Visitadores e na sensibilização das equipes coordenadoras para o verdadeiro significado de uma prática voltada às mudanças sociais.

É preciso orientar o visitador para a prática da escuta, trabalhar seus conceitos, suas crenças e sua capacidade de abertura para o inédito, para aquilo que contradiz seu cotidiano. Conforme Solymos (2009), ao trabalhar com famílias, em qualquer área de atuação, é preciso evitar que a visão interna de família comprometa o olhar e a ação com famílias que são diferentes de nossas referências. Questionar este olhar é um bom ponto de partida.

Neste sentido, a organização de espaços de formação continuada e supervisão que favoreçam a escuta do Visitador pode contribuir para reflexões, questionamentos e a construção de olhares compostos por diferentes profissionais. Além disso, regulamentar um espaço de escuta do visitador fomenta um exercício que pode se refletir na disponibilidade dele em escutar as famílias que atende.

O estabelecimento de rotinas de supervisão e formação continuada do visitador é uma estratégia de aprimoramento relevante, desde que ocorra um equilíbrio entre as questões metodológicas e as questões reflexivas – permitindo aos participantes um reposicionamento crítico com relação ao trabalho desenvolvido.